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Nesta viagem pela Galiléia, descobrimos que o maior estrago feito pelas milhares de katiushas que caíram em Israel não foi material, mas psicológico. O Hezbollah, com seus busca-pés, conseguiu desmoralizar a poderosa aviação e os majestosos tanques Merkava da artilharia israelense.
Data: 17/08/2006

GALILÉIA - Faz apenas dois dias que as katyushas pararam de cair em Haifa, Aco, Tiberiades e em toda a Galiléia. Nossa expedição por essa região conflagrada começou pelo Colégio Galili, situado num dos vales de entrada da Galiléia. Havia sido convidado a dar uma palestra sobre o Brasil. O colégio oferece cursos a quadros dirigentes de países do Terceiro Mundo. Sua sede fica no moshav Nahalala, o mais antigo do país, todo construído em forma planejada, como nas cidades da Utopia. O moshav é um meio caminho entre kibutz e cooperativa. As famílias de colonos têm vida econômica própria, mas compartilham terras e todos os implementos e instalações de processamento da produção.

Fui recebido pelo diretor, Joseph, Shevel, mais conhecido como Joshi, que logo me explicou o principal efeito das katiushas no Colégio Galili: uma turma que deveria chegar hoje da Tanzânia para um curso sobre mercados internacionais cancelou a vinda. O mesmo fez outra turma que deveria chegar dias. Mesmo que as turmas de alunos viessem, não seria fácil: os funcionários do colégio fugiram para o Sul, como fez metade da população do Norte, cerca de 90 mil pessoas.

Acabei dando uma miniconferência sobre o Brasil apenas para quatro pessoas, incluindo o próprio Joshi. Estavam interessados principalmente em divulgar os cursos do Colégio Galili no Brasil. Os cursos são interessantes: sobre gestão hospitalar, gestão de universidades, marketing de produtos agrícolas. Na saída tropeçamos com um “military-professor” que dá um curso muito útil neste momento para os paulistanos: sobre segurança pública.

Voltamos para o Oeste em direção a Haharia, uma cidade de veraneio muito atingida pela katiushas, segundo a mídia. Fomos direto almoçar no Penguim, o restaurante mais famoso da cidade – e que ficou ainda mais famoso porque recebeu o impacto direto de uma katyusha e, mesmo assim, nunca fechou durante os 32 dias de guerra. Não vimos sinal nenhum de katyusha. Tudo no local já havia sido consertado. Essa fora uma decisão das autoridades, consertar tudo bem depressa. Os carros atingidos também já haviam sido todos recolhidos.

Terminado o almoço, fomos ver os estragos na cidade, que é muito bonita. Entramos por uma rua, por outra rua, mas nada. Já estava desconfiando que a tal guerra das katyushas havia sido como a Phoney War, dos ingleses da Segunda Guerra, quando usavam táticas diversionistas descrevendo batalhas e estragos que não tinham acontecido, para desnortear os alemães. Enfim, depois de muita busca, avistamos uma casa atingida. Buracos nas paredes, muitos buracos. A katyusha grande é um cano de 8 metros de comprimento que tem alcance de até 100 quilômetros. A parte que cai tem 3 metros e carga explosiva de 80 a 100 quilos, que é misturada com um monte de esferas de aço. O estrago principal é causado por essas esferas, que se espalham como uma bomba de fragmentação, furando e arrebentando o que atingir. A katyusha pequena, de 4 metros de comprimento no momento do lançamento, e que caiu em maior número, têm 10 quilos de carga.

Mas é preciso procurar muito para descobrir um sinal das katyushas. A cidade parece normal, tudo parece normal, até o congestionamento na rua principal. As estimativas são de que apenas 5% das katyushas provocaram algum dano material ou atingiram as pessoas fisicamente. Atravessamos toda a Galiléia, que estava linda de doer, com seu arvoredo tipo cerrado de árvores retorcidas, aqui e acolá grupos de oliveiras, e em toda parte, a mesma coisa: poucos sinais de estragos. Na televisão viam-se os bosques em chamas. É o efeito da técnica do enquadramento, que ao destacar um evento isolado, faz com ele pareça amplo, geral e irrestrito.Vimos sinais dos incêndios, manchas negras aqui e acolá, mas poucas e isoladas, de modo que o cenário geral verdejante não foi alterado. As katyushas não romperam equilíbrio ambiental.

Chegamos em Kiiriat Shmone, a cidade mais atingida pelas katyushas. Ali acreditávamos ser possível ver os estragos. De novo, quase nada. Tivemos que rodar muito, eu e meu cicerone brasileiro, pedir informações, até chegar a uma moradia humilde toda furada pela katyusha. A moradora, uma senhora de uns cinqüenta anos, ainda tremia ao falar dos estragos. Foi então que percebi o verdadeiro sentido da Guerra das Katyushas: seu grande estrago não é material, é psicológico.

Só o fato de ter que correr aos abrigos de quinze em quinze minutos, como foi o caso em Kiriat Shmone, já acaba com os nervos de qualquer um. Imaginem isso em abrigos que estavam abandonados, alguns deles cheios de ratos e de lixo, sem os suprimentos de água. Imaginem isso com os velhinhos, que em sua maioria não tinham como fugir para o Sul. Foram cerca de dez mil casas atingidas, dizem os jornais. Fiscais das prefeituras estão indo de casa em casa, para anotar os estragos e instruir os moradores. Todos receberão uma ajuda para os consertos.

Mas os estragos materiais, como vimos, são o de menos. As mortes provocadas pelas katyushas também foram poucas, considerando-se que caíram alguns milhares delas, umas 150 por dia, em média. O que as prefeituras e seus fiscais não vão conseguir consertar foi abalo que as corridas sem fim aos abrigos, a cada quinze minutos, provocou na confiança que a população tem em seus lideres. O Hezbollah, com seus busca-pés chamados katyusha, conseguiu desmoralizar a poderosa aviação e os majestosos tanques Merkava da artilharia israelense. No retorno, cruzamos com as carretas gigantescas que traziam de volta os inúteis Merkava.

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