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Tribuna da imprensa online

As mortes glorificadas

Maria Teresa Dal Moro - 21/07/2006

Que o Estado de São Paulo é a locomotiva do Brasil, ainda se discute? E que a TV Globo é a locomotiva que conduz o sentimento e o pensamento brasileiro, isso alguém discute?
O velório de Raul Cortez foi uma prova do poderio dessa locomotiva que vem se tornando o porta-voz da degradação moral de um povo sadio por natureza. Por que o velório foi no Teatro Municipal de São Paulo? Ninguém nega que o Teatro é o rei das artes e que na escalada da glória ele está no topo. Como quase todos os brasileiros, conheço a carreira de Raul e além dessa inata elegância que marcava sua presença dentro e fora da cena, era um ser humano afetuoso, solidário e generoso.

Mas a minha surpresa é que o velório tenha sido justamente no Teatro Municipal, onde ignoro que peça teatral Raul interpretou. Há dois anos, morreu no Rio Assis Pacheco, o maior tenor brasileiro de todos os tempos, consagrado internacionalmente. A classe lírica fez de tudo para que seu velório fosse no saguão do Teatro Municipal, onde marcou os momentos culminantes de sua gloriosa carreira. Ignoraram completamente o pedido e sequer mandaram uma coroa de flores para o velório no Cemitério de São João Batista.

Diretamente, pedi ao diretor de Coro, Maurílio Costa, que mandasse um grupo de cantores para homenagear personalidade tão importante na história da arte lírica brasileira.

Silêncio total. Na missa de sétimo dia, a mesma indiferença. Por que os paulistas são mais solidários? Por que a direção do Municipal de São Paulo abriu suas portas para um ator que não está na sua própria história? Porque era uma estrela da poderosa Globo? E de tudo o que mais doeu no coração dos artistas líricos foi que o belíssimo coro do Teatro cantou o "Va pensiero", do Nabucco, de Verdi, como se Raul Cortez fosse a maior figura operística do País.

Honras ele merece, carinho e respeito. Foi um ator que ultrapasou os limites da criação para entrar nos difíceis caminhos da imortalidade. Era um ATOR na plenitude da palavra e merecia todas as honras, mas... no primeiro teatro do Estado de São Paulo, por quê? É, deve ser porque foi um dos astros da Globo e esta poderosa é capaz de ferir todos os sentimentos do povo brasileiro e sair impune até em cenas de puro erotismo sem respeitar a família brasileira.

Assis Pacheco morreu do mal de parkinson e seu nome está ligado ao melhor da ópera mundial. Numa cidade que tivesse respeito pelos seus artistas e com uma direção que conhecesse a história dos seu valores exponenciais, jamais seria esquecido no momento em que encenava sua carreira na terra para entrar na importalidade. Certamente, na hora em que Raul Cortez foi ao seu encontro devem ter se dado um grande abraço porque Pacheco era tão como Raul, com uma única diferença, tinha que atuar cantando.

E nesse momento deve ter começado a esboçar, pois era além de notável cantor, cenógrafo, figurinista, pintor, era retratista de requintada sensibilidade, um belo retrato de Raul como um dia fez o melhor de Villa-Lobos. E lá de cima, ao assistir à suntuosa homenagem no teatro mais importante do seu estado.

Pacheco era paulista, deve ter pensado que ser cantor lírico é uma triste profissão num País onde ser até faxineiro de teatro seria melhor do que ser cantor lírico. Carlos Gomes, de quem era seu imortal intérprete de "O Guarani", deve ter feito uma grande festa quando ele voltou às suas origens divinas há dois anos.


Maria Teresa Dal Moro é jornalista
mtdalmoro@hotmail.com


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5/9/2010
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