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Opinião - Moacyr Scliar

Transgressão não é reforma social

É verdade, sim, que a pobreza é o caldo de cultura para o crime, que as favelas fornecem os recrutas do PCC, mas daí a comparar os conflitos de São Paulo com Canudos...

Data: 20/07/2006

O PCC introduz várias novidades na história do crime no Brasil. Em primeiro lugar, a noção da organização. Temos um Primeiro Comando da Capital, o que significa a possibilidade de um Segundo Comando, de um Terceiro Comando e assim por diante - na capital, no Estado, no país. Em segundo lugar, a tática, planejada e até certo ponto complexa. O que não deixa de surpreender. Tática? Então os criminosos têm tática, têm planos? Como?

Uma explicação surgiu recentemente para isto. O PCC teria encontrado um mentor na pessoa do chileno Mauricio Hernández Norambuena, que liderou em 2001 o seqüestro do publicitário Washington Olivetto. Detido, Norambuena, sempre segundo esta versão, transmitiu aos seus colegas de prisão as idéias que agora norteiam a ação do PCC.

Se isso é verdade, a coisa faz pensar. Norambuena não é um marginal comum. Professor, era membro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, organização que pregava a revolução socialista pelas armas. E aí vem a pergunta: é possível que um grupo revolucionário de esquerda transforme-se num bando de criminosos comuns?

É. Porque essa metamorfose obedece a uma justificativa (a um sofisma, se vocês quiserem): o crime é apenas uma faceta da luta de classes. A transgressão é um resultado da desigualdade social. Curiosamente, quem defende, ao menos em parte, esta idéia, é ninguém menos que o governador de SP, Cláudio Lembo (PFL). Na visão dele, repete-se em São Paulo a guerra de Canudos, que, no sertão da Bahia, opôs os seguidores de Antônio Conselheiro, cerca de 25 mil, às tropas do Exército num sangrento conflito. É verdade, sim, que a pobreza é o caldo de cultura para o crime, que as favelas fornecem os recrutas do PCC. Mas daí a acreditar que a guerra urbana em SP resultará numa transformação social vai uma distância muito grande. Porque o crime organizado nada tem a ver com o socialismo. Claro, cria formas de apoio social, coisa que o terrorismo também faz, para conquistar as boas graças da população. Mas seu objetivo concreto, real, é ganhar dinheiro. Neste sentido, estão mais próximos daquele capitalismo selvagem, o capitalismo dos "robber barons", dos barões ladrões americanos, que viam na transgressão a continuação dos negócios por outros meios. A propósito: não percam (vou repetir: não percam) o filme de Costa-Gavras, O Corte, que acabou de estrear no Guion, o cinema que é um estado de espírito. O personagem principal é um alto executivo que, despedido de sua empresa numa daquelas "reorganizações" que têm sido tão freqüentes nas economias ocidentais, dedica-se a eliminar possíveis rivais na busca de emprego.

Inclusão social deve ser palavra de ordem em nosso país e em nosso mundo. Mas a inclusão social não pode ser feita pela via do crime, assim como a mudança social não pode ser feita pela via do terror. Vivemos uma época de grande confusão ideológica, em que é muito fácil dizer e fazer besteiras. Por isto precisamos de mentes lúcidas. A esquerda tem uma história de lucidez. Precisa mantê-la, em benefício do mundo em que vivemos.


***

Nem o Dostoievski de Crime e Castigo poderia descrever o caso Suzane von Richthofen. É uma situação em que a realidade ultrapassa a imaginação.


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5/9/2010
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